O selénio pode ajudar no hipotiroidismo
A tiroidite de Hashimoto é a causa subjacente mais comum de hipotiroidismo. Caracteriza-se por fadiga extrema, aumento de peso, e vários outros sintomas. A tiroidite de Hashimoto é uma doença auto-imune em que os anticorpos atacam a glândula tiróide. São muitas as pessoas que não melhoram com tratamento, antes pelo contrário. Contudo, segundo uma metanálise publicada em Medicine, tudo indica que a suplementação com selénio consegue reduzir as reacções auto-imunes e a formação dos diversos anticorpos pelo organismo. O selénio ajuda a regular a função tiroideia, além de constituir um antioxidante que protege a glândula tiróide contra stress oxidativo.
A incidência da tiroidite de Hashimoto tem aumentado nas últimas décadas, especialmente entre as mulheres. É uma doença insidiosa que se caracteriza por níveis elevados de anticorpos, como os anti-TPO e anti-Tg, que atacam a glândula tiróide. A produção de hormonas tiroideias pelo organismo também diminui nas regiões afectadas, devido às reacções auto-imunes.
A glândula tiróide é o órgão com a maior concentração de selénio relativamente ao seu tamanho. Daí que a ciência há muito admita que este é um oligoelemento fundamental para a estrutura e funcionamento desta glândula, e que a carência de selénio pode levar a reacções auto-imunes. Todavia, os estudos revelaram resultados contraditórios quanto ao facto de o selénio poder ou não influenciar a formação de anticorpos do organismo e, por isso, os investigadores pretendem fazer uma análise mais aprofundada nesta nova metanálise.
A suplementação prolongada com selénio diminui a formação de anticorpos do organismo
Ao pesquisar em diversas bases de dados, como PubMed, Web of Science, EMBASE, Scopus e Cochrane Library, os investigadores encontraram sete estudos controlados, que envolveram 342 doentes com tiroidite de Hashimoto. Nestes estudos, os doentes receberam 50-200 microgramas diários de selénio ou placebo correspondente, durante 3-6 meses. Segundo os resultados, não se observaram alterações significativas nos níveis dos diversos anticorpos após três meses. Contudo, após seis meses, observou-se diminuição significativa dos níveis dos anticorpos anti-TPO e anti-Tg.
Baseados nesta descoberta, concluíram que a suplementação com selénio durante seis meses pode fazer baixar os níveis séricos destes dois anticorpos. Há estudos que sugerem que a suplementação diária com 200 microgramas de selénio é muito eficaz na diminuição dos anticorpos e na melhoria da estrutura da glândula tiróide.
Qual o impacto do selénio nas funções e no estado da glândula tiróide?
É do conhecimento geral que a glândula tiróide precisa de iodo para produzir T4 (tiroxina), que tem quatro átomos de iodo, e T3 (triiodotironina), que tem três átomos. A T4 é a hormona tiroideia inactiva que é transformada em T3 activa nos diversos tecidos do organismo. O processo envolve várias enzimas que contêm selénio (deiodinases), que retiram um átomo de iodo da T4, transformando-a em T3 activa.
O selénio também faz parte dos potentes antioxidantes GPX, que protegem a glândula tiróide contra o stress oxidativo causado pelos radicais livres. A tiróide é um órgão extremamente activo, pelo qual passa um enorme fluxo de sangue, o que significa que está sujeita a grandes quantidades de radicais livre. A carga de radicais livres é agravada por stress, álcool, medicamentos, mercúrio e outras toxinas ambientais.
Os radicais livres são moléculas extremamente agressivas que atacam as células e os tecidos, a menos que sejam neutralizadas por antioxidantes protectores. Uma das características da tiroidite de Hashimoto é o stress oxidativo acompanhado de excesso de radicais livres.
Por também ter função antioxidante, o selénio ajuda a neutralizar os diversos processos inflamatórios que caracterizam as reacções auto-imunes.
Não esquecer que o selénio pode levar até seis meses a ser eficaz, pelo que, normalmente, será prudente continuar a suplementação. As pessoas com défice de selénio correm o risco de as terapêuticas com hormona T4 sintética (Eltroxin e Euthyrox) poderem não dar resultado, devido à falta de enzimas que contêm selénio para ajudar na transformação de T4 em T3.
Doenças da tiróide e carência de selénio
- Pensa-se que cerca de 1-2 por cento da população mundial tem história de tiroidite de Hashimoto
- Em Portugal, as doenças da tiróide afectam mais de um milhão de pessoas
- A maior parte das pessoas com hipotiroidismo não tem diagnóstico da doença
- Muitas pessoas que fazem tratamento acabam por sentir-se pior
- Estima-se que mil milhões de pessoas em todo o mundo tenham falta de selénio
- O solo da Europa é pobre em selénio e muitas pessoas têm falta do nutriente, mesmo fazendo uma alimentação saudável e equilibrada
- Há uma eventual ligação entre a incidência crescente de doenças da tiróide e problemas generalizados com carência de selénio
Referências bibliográficas:
Kong Xiang-Qi et al. Clinical efficacy of selenium supplementation in patients with Hashimoto´s thyroiditis: A systematic review and meta-analysis. Medicine 2023
Lutz Schomburg. Selenium Deficiency Due to Diet, Pregnancy, Severe Illness or COVID-19 – A Preventable Trigger for Autoimmune Disease. International Journal of Molecular Sciences. 2021
Aparna Shreenath. Selenium Deficiency. StatPearls. May 6, 2019
Pernille Lund. Har du problemer med dit stofskifte? Ny Videnskab 2015
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