A suplementação com selénio e Q10 é benéfica para o metabolismo, a circulação e a esperança de vida
O selénio faz parte das enzimas que activam as hormonas tiroideias. Também faz parte de vários antioxidantes que protegem as células e o sistema circulatório de danos causados pelos radicais livres. Além disso, o selénio é crucial para a melhor metabolização do Q10, que tem influência no metabolismo energético celular. Contudo, o aporte de selénio é muito baixo em muitos países europeus, sobretudo, devido ao facto de o solo ser pobre em selénio. Simultaneamente, a produção endógena de Q10 diminui significativamente com a idade. E isto pode levar a alterações metabólicas, aterosclerose, fadiga, e outras doenças por carência. Segundo um estudo de seguimento, publicado em BMC Medicine, a suplementação com selénio e Q10 é benéfica para as hormonas tiroideias, circulação, qualidade de vida e esperança de vida.
A glândula tiróide é o órgão onde se encontra a maior concentração de selénio relativamente ao peso. Isto deve-se ao facto de o selénio ser um composto das enzimas chamadas deiodinases, que transformam a hormona tiroideia T4 inactiva na hormona T3 activa. A T3 permite que o oxigénio entre nas células, de modo a estas poderem produzir energia conforme seja necessário. O selénio também faz parte das enzimas antioxidantes, as chamadas GPX (glutationa peroxidase), que protegem a glândula tiróide dos danos oxidativos provocados pelos radicais livres. Esta função é especialmente importante, uma vez que a glândula tiróide recebe cerca de cinco litros por hora de sangue oxigenado, aumentando-lhe a exposição aos radicais livres.
Um grande estudo populacional chinês, com 6 100 participantes, constatou que a carência de selénio, que é generalizada em determinadas regiões da China, aumenta o risco de hipotiroidismo, doenças auto-imunes da tiróide, como tiroidite de Hashimoto ou doença de Graves, e bócio, em que se verifica hipertrofia da glândula tiróide.
A carência de selénio é igualmente generalizada na Europa, devido, sobretudo, ao solo pobre em selénio. Esta carência tem impacto negativo na capacidade do organismo para metabolizar a coenzima Q10.
Existem duas formas de Q10: a ubiquinona, fundamental para a produção de energia nas células ao transformar as calorias dos alimentos em energia, utilizando oxigénio. Este processo tem lugar nas centrais eléctricas celulares — a chamadas mitocôndrias; e o ubiquinol, que funciona essencialmente como um antioxidante que protege as células e o colesterol de danos oxidativos provocados pelos radicais livres. Neste processo, o selénio tem um papel essencial na enzima TXNRD, que garante que o Q10 pode alternar entre as duas formas.
Contudo, a produção de Q10 pelo organismo começa a diminuir depois dos 20 anos, sendo que aos 80 anos os níveis de Q10 do coração terão diminuído em cerca de metade. Desta forma, as pessoas de mais idade que vivem em regiões pobres em selénio têm maior risco de doenças cardiovasculares e outras patologias devidas a défice de selénio e Q10. O novo estudo de seguimento teve por objectivo verificar a relação entre os níveis séricos de selénio e várias hormonas tiroideias, bem como investigar se a suplementação com selénio e Q10 pode ter influência nas concentrações de hormonas tiroideias, taxas de mortalidade e qualidade de vida.
A suplementação com selénio e Q10 é benéfica para o metabolismo, a circulação, e a esperança de vida
Os investigadores utilizaram dados e amostras de sangue de um estudo inovador anterior - o KiSel-10, que abrangeu 443 idosos suecos, homens e mulheres, com idades entre 70-88 anos. Todos os participantes eram relativamente saudáveis e autónomos. Foram divididos em dois grupos: um grupo recebeu um suplemento diário de 200 microgramas de levedura de selénio e 200 mg de Q10 de qualidade farmacêutica, ao passo que o outro grupo recebeu placebo. Todos os participantes continuaram a fazer a medicação habitual prescrita pelos seus médicos.
Ao longo do estudo, monitorizaram-se a função cardíaca e a tensão arterial dos participantes, e congelaram-se mais de 50.000 amostras de sangue para análise posterior.
No início do estudo, ambos os grupos apresentavam um baixo nível médio de selénio no sangue de 67 µg/l. Isto corresponde a um aporte diário de selénio de 35 µg, o que é manifestamente baixo. Ab initio, verificou-se que os participantes com as concentrações de selénio mais baixas apresentavam níveis de tirostimulina (TSH) significativamente mais elevados, o que estimula a segregação de hormona pela glândula tiróide. Também apresentavam níveis de T3, a hormona tiroideia activa, significativamente mais baixos. Níveis elevados de TSH e níveis baixos de T3 indicam desequilíbrio nas hormonas tiroideias e metabolismo lento.
O estudo durou 48 meses, e, no novo estudo de seguimento, os investigadores constataram que os participantes que tinham tomado suplementos de selénio e Q10 apresentavam níveis de TSH significativamente mais baixos e níveis de T3 significativamente mais elevados, bem como outros sinais de melhoria do metabolismo. No grupo placebo, não se verificaram diferenças significativas.
Além disso, verificou-se que baixa concentração de T3 livre estava associada a valores mais elevados de proteína C reactiva (PCR), um marcador de inflamação. A inflamação crónica, muitas vezes associada ao envelhecimento, leva a aumento do stress oxidativo, o que pode provocar lesão das células e do sistema circulatório.
Os investigadores também constataram que os participantes do grupo placebo com níveis de TSH mais elevados tinham maior risco de morte nos 10 anos seguintes. Outros estudos descrevem que os doentes com hipotiroidismo subclínico têm maior risco de doença cardiovascular.
Por outro lado, níveis de TSH mais baixos estavam associados a menor risco de morte por doença cardiovascular e melhoria da qualidade de vida.
Os benefícios da suplementação com selénio e Q10 nas hormonas tiroideias devem-se, em larga medida, ao papel do selénio nas enzimas deiodinases, que são cruciais para transformar a hormona tiroideia T4 inactiva na forma activa T3. Os investigadores concluíram igualmente que uma parte significativa dos participantes do estudo tinha história de disfunção da tiróide subclínica, devido a aporte insuficiente de selénio.
Este novo estudo de seguimento, que visa especificamente as hormonas tiroideias, foi publicado na BMC Medicine. O estudo Kisel-10 e outros estudos já mostraram que a suplementação com selénio e Q10 de qualidade farmacêutica pode aumentar a esperança de vida e melhorar a qualidade de vida, através de vários mecanismos, incluindo a regulação de stress oxidativo, inflamação crónica e diversos biomarcadores relacionados com a saúde cardíaca e circulação.
Referências bibliográficas:
Urban Alehagen et al. Supplementation with selenium and Q10 in an elderly Swedish population low in selenium – positive effects on thyroid hormones, cardiovascular mortality, and quality of life. BMC Medicine 2024
Urban Alehagen et al. Improved cardiovascular health by supplementation with selenium and coenzyme Q10: applying structural equation modeling (SEM) to clinical outcomes and biomarkers to explore underlying mechanisms in a prospective randomized double-blind placebo-controlled intervention project in Sweden. European Journal of Nutrition. 2022
Alehagen U, et al. Cardiovascular mortality and N-Terminal-proBNP reduced after combined selenium and coenzyme Q10 supplementation. Int J Cardiol. 2013.
DICA! Veja também os artigos relacionados
